HISTÓRICO

50 ANOS DA AMAPAR

A Associação dos Magistrados do Paraná completa 50 anos em 11 de agosto de 2007.

Por Chloris Elaine Justen de Oliveira

A fundação da AMAPAR remonta ao ano de 1957, quando a população do Paraná beirava os quatro milhões de habitantes. O Estado contava com 79 comarcas, o Tribunal de Justiça 11 membros e a magistratura aproximadamente cem magistrados.

Naquele ano 1957 - o saudoso juiz Alceste Ribas de Macedo, numa atitude inédita, mudou os rumos do Poder Judiciário paranaense. Criou, com um grupo de juízes, uma associação original, promovendo a integração do juiz, intensificando o intercâmbio cultural, fortalecendo o espírito de cooperação e solidariedade entre seus membros e incentivando outras unidades da Federação a seguir seu exemplo.

A Nação, à época, recém saía de uma ditadura, em pleno pós-guerra, estava aprendendo a viver numa democracia. Não havia tradição em associação de classe, muito menos nos meios forenses. No Poder Judiciário, o padrão de comportamento estabelecido, a tradição, era do juiz sóbrio, sisudo, membro de uma elite intelectual, comportamento fidalgo, mesmo que isto não correspondesse ao seu padrão econômico. O conceito de imparcialidade do magistrado era proporcional ao seu distanciamento da sociedade, incluindo seus próprios pares. Juiz só "falava" nos autos, sua palavra era definitiva e não era para ser contestada. E desembargador era tudo isso e mais ainda, inacessível às partes, advogados e aos próprios juízes.

O juiz Alceste Ribas de Macedo, então titular da 1ª Vara Cível da Capital, foi convocado pelo presidente Des. Lauro Sodré Lopes para uma audiência no Palácio Garibaldi, sede do Tribunal de Justiça. O presidente do Tribunal explicou-lhe que os desembargadores pleiteavam um aumento de vencimentos e que o Estado não tinha condições de suportar tal despesa para toda a magistratura e queria que ele, como diretor do fórum, solicitasse aos demais juízes, compreensão para com a medida discriminatória, e que no decorrer do período todos seriam atendidos.

O juiz Alceste, homem fino e educado, constrangido disse:

- Des. Lauro Lopes, não tenho autoridade para, em nome de meus colegas, fazer um acordo com o presidente do Tribunal e considero uma traição concordar com tal aumento.

O des. Lauro Sodré Lopes, após pensar, respondeu:

- Dr. Alceste o senhor tem razão. Se vamos pleitear um aumento que seja para toda a magistratura.

Ao retornar ao seu gabinete, relatou o encontro àqueles que o esperavam. Após momentos de indignação, louvaram a atitude corajosa e destemida do colega e resolveram pela criação de uma associação.

Esses juízes, incansáveis e determinados, conseguiram mudar a mentalidade vigente. Inicialmente propuseram palestras, congressos culturais e jurídicos, almoços e encontros recreativos, institucionalizando atividades que proporcionassem o entrosamento e congraçamento entre os magistrados. A aceitação inicial da organização foi custosa, difícil, inclusive entre seus membros. Mas, sentindo-se fortalecidos, iniciaram novos pleitos: as reivindicações remuneratórias, exigindo pontualidade e integralidade no pagamento dos proventos. Agora já se apresentavam como uma categoria profissional e como tal se comportavam. As decisões aprovadas, as opiniões emitidas em concorridas assembléias fortaleceram os laços de amizade, o respeito entre seus membros.

No entanto, foram surpreendidos pelo arbítrio do comando militar que, à época, aposentou compulsoriamente o então presidente e o vice-presidente do Tribunal de Justiça do Paraná, Des. Alceste Ribas de Macedo e Des. José Pacheco Júnior. O ato, repudiado pela Amapar e pela comunidade jurídica, só obteve resposta quando, já falecido José Pacheco Júnior, Alceste Ribas de Macedo foi reconduzido ao cargo de desembargador. Fez-se Justiça.

A abertura política de 1980 encontrou juízes atuantes, dedicados aos estudos, menos circunspetos, e que, ao instalarem aEscola da Magistratura, trouxeram a colaboração de juristas nacionais e internacionais, comungando das mais variadas teses jurídicas, tornando o estabelecimento um celeiro de estudiosos do Direito. Hoje, a Escola da Magistratura do Paraná é um centro formador de magistrados que oferece curso de especialização, reconhecido pelo Ministério de Educação - iniciação funcional e treinamento com igual carga horária e conteúdo programático em seus nove núcleos: Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Umuarama, Jacarezinho, Cascavel, Foz do Iguaçu e Francisco Beltrão. Nesse período, as mulheres matriculadas na Escola já eram em número expressivo. Aprovadas nos concursos públicos, ingressaram na carreira e, atualmente, 40% da magistratura estadual é formada por mulheres.

A ampliação e reestruturação do Judicemed se fizeram urgentes e necessárias, permitindo maior abrangência, inclusive instalando-se no Interior. Técnicos especializados orientaram as modificações regimentais, para cobrir os custos com as novas patologias e sofisticados tratamentos e o nosso plano de saúde é reconhecido como um dos melhores e mais bem sucedidos no gênero. Atualmente, o Judicemed está estruturado como Associação de Assistência Médico-Hospitalar dos Magistrados do Estado do Paraná atende aos associados e seus dependentes de maneira peculiar e especializada cumprindo os objetivos propostos na sua criação. A Mútua Judiciária, seguro de vida em benefício da viúva do magistrado falecido é embasada nos princípios de solidariedade, reciprocidade e cooperação mútua entre os membros da magistratura. Os valores são pagos por ocasião do óbito.

A década de 90 encontrou um magistrado ávido por aperfeiçoamento, com boas condições de trabalho, pleiteando melhorias para sua categoria profissional. Eclodiram grandes idéias e novos rumos foram traçados. A Amapar não era mais uma associação de classe empenhada apenas na preservação de seus direitos. Ultrapassou o corporativismo, rumou para a representatividade social, mobilizou-se para garantir a identidade profissional de seus membros e a sua própria. O juiz passou a participar de atos públicos, mobilizações, comungando com a população suas expectativas, fortalecendo a Amapar: Cidadania é Justiça. Houve uma reengenharia administrativa, foram criadas as coordenadorias regionais, novos núcleos da Escola, campeonatos de futebol passaram a ser freqüentes e patrocinados pela Amapar. O juiz não precisava mais se preocupar em comprometer sua jurisdição, ao praticar esportes. Os magistrados aposentados, prestigiados e valorizados, passaram a participar ativamente da agremiação, preocupados com o aumento da miséria e da violência, a falta de perspectiva da juventude e voltando-se para o atendimento à criança, passaram a atender a comunidade carente moradora próxima da Sede Esportiva Des, Zeferino Krukoski. Surgiu o Sersocial, entidade prestadora de serviço social mantida com a contribuição financeira dos associados proporcionando aos moradores do bairro Guaraituba, em Piraquara aulas de cidadania, atividades esportivas, avaliação médica, atendimento materno-infantil e escolar, cumprindo as disposições do Estatuto da Criança e do Adolescente, atendendo assim os preceitos éticos e morais da instituição.

O Departamento Cultural e a Escola da Magistratura mantêm cursos, palestras e sugestões por ocasião de mudança de leis e ou para cumprimento dos dizeres constitucionais. Foram criados projetos com programas de esclarecimento nas campanhas de inclusão social, acesso à Justiça, Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, Conselhos de Conciliação, Juizados Especiais, Defensoria Pública, Código do Consumidor, Código do Meio Ambiente, Mercosul, Direito Alternativo, Juros Bancários e todo e qualquer tema da atualidade e do interesse do magistrado, proporcionando embasamento para que o magistrado julgue com tranqüilidade e correção.

E o juiz sentiu-se seguro e, com o apoio da Amapar, passou a se manifestar em defesa da atividade judicante, a exigir respeito às decisões judiciais, ao direito do magistrado de acompanhar as reformas constitucionais. Esse debate público pela garantia das prerrogativas constitucionais e pela Justiça deflagrou uma crise política, dramática para a magistratura paranaense. O chefe do Poder Executivo descumpria decisões judiciais, externava comentários desairosos e agressivos sobre assuntos administrativos e financeiros do Tribunal de Justiça e deferia aumentos para outras categorias profissionais. A Amapar tomou as medidas legais e, por decisão unânime da assembléia convocada, requereu o "impeachment" do governador e o Tribunal de Justiça aprovou a intervenção federal. Foi um período de tensão, cinco meses em assembléia permanente e, após 60 dias de interrupção das atividades forenses (greve), os magistrados tiveram suas reivindicações atendidas e garantidas pelo Supremo Tribunal Federal.

O terceiro milênio chegou. O juiz atual é um juiz moderno, homem ou mulher, um operador do Direito, participa da vida social da sua comunidade, pratica esportes, utiliza sofisticados aparelhos de comunicação, interage com o desembargador, discorda do presidente do Tribunal, mas continua trabalhando diuturnamente, sozinho nas suas decisões, isolado na sua Comarca, consciente da sua representação social, da sua autoridade e de seu único compromisso, a Lei.

E, depois de tantos anos enfrentando toda sorte de adversidades, encontramos a Associação dos Magistrados do Paraná autônoma, independente, auto-suficiente na integral assistência aos seus membros, usando de mecanismos para amenizar as dificuldades na árdua missão de julgar e empenhada no fortalecimento do Judiciário, informando e divulgando suas ações pela revista Novos Rumos de periodicidade mensal, de um sítio na internet, e, para melhor contato com a comunidade, um bem estruturado programa de rádio "Justiça para Todos", apresentado de segunda a sexta-feira, às 9 horas.

Dezoito magistrados presidiram a Amapar nesse meio século. Líderes da classe, com suas diretorias empregaram o melhor de sua capacidade, com o objetivo de dar condições plenas ao magistrado de bem exercer a judicatura e proporcionar-lhe, e a seus familiares, apoio no âmbito cultural, jurídico e de saúde. Exemplo evidente desse propósito é o crescimento da Judicemed e da Escola da Magistratura do Paraná, o surgimento do Sersocial, a criação e ampliação de suas magníficas sedes.

O setor administrativo também cresceu. De uma sala alugada na Praça Zacarias hoje dispõe de espaço no Palácio da Justiça modernamente equipado e com pessoal capacitado para o atendimento ao associado. Neste ano de 2007, a Amapar adquiriu uma área de 2.681 m2 para a edificação da sua sede administrativa no Centro Cívico, na Capital.

São nove as sedes sociais e esportivas da Amapar: Colônia de Férias Des. Antônio Franco Ferreira da Costa, em Guaratuba; Sede Esportiva Des. Zeferino Krukoski, em Piraquara; Recreio dos Magistrados Des. Mercer Júnior, na Colônia Faria Colombo; Sede Social Des. Paula Xavier Filho, em Foz do Iguaçu; Sede Social de Maringá, Sede Social de Londrina, Casa do Magistrado Des. Aurélio Feijó, no bairro Pilarzinho - Curitiba e, em construção, a Sede Social de Ponta Grossa. Todos os locais são administrados por associados juízes de direito.

Grandes e significativas são as conquistas da Amapar neste meio século. Cinqüenta anos, seiscentos juízes, 155 Comarcas e uma população de dez milhões de habitantes.

Parabéns aos magistrados paranaenses de todos os tempos.

 
AMAPAR - Palácio da Justiça, 9° andar - Centro Cívico - CEP 80530-912 - Curitiba / PR - 41-3017-1600 - 41-3017-1601