RESPONSABILIDADE SOCIAL

Albino Freire

Meus amigos, quero confessar-lhes um pecado capital: Inveja! Morro, sim, de inveja e estou sendo absolutamente sincero de certos colegas que dedicam seus sábados ou domingos para o trabalho voluntário em escolas e hospitais. Vocês sabiam disso? Pois é verdade. Confesso que gostaria de fazer o mesmo, mas não tenho a menor vocação para esse tipo de serviço. Foi então que me perguntei, certa ocasião, a mim mesmo, como poderia dar minha contribuição à causa social. E me lembrei de que, como professor de Português, poderia prestar um bom serviço à comunidade, escrevendo em jornais e revistas alguma coisa sobre questões vernáculas. Foi o que passei a fazer, aliás, com muita satisfação. Faz-me lembrar meu saudoso professor e amigo, Mansur Guérios, cuja maior alegria era receber telefonemas e consultas de seus alunos e amigos sobre questões lingüísticas. Deve ter sido dele que herdei esse prazer em responder às consultas de meus generosos leitores. Então, passei a assinar, na revista de nossa associação, a coluna Linguagem Forense e, no jornal O Estado do Paraná, juntamente com o Professor Leopoldo Scherner, uma coluna aos domingos, com o título Nossa Língua, Nossa Pátria.

A propósito do tema, lembro que, quando juiz titular de minha primeira Comarca, fui procurado, certa feita, pela esposa do prefeito, a qual era presidenta da A.P.M.I., pedindo-me ajuda para evitar que aquela entidade fechasse as portas, por absoluta falta de recursos.

- Mas, logo eu?! Que posso fazer pela senhora, se o seu marido, que tem a chave do cofre, não pode ajudá-la? - A prefeitura, disse ela, também está mal das pernas. É como tentar tirar leite de pedra...

Fiquei de pensar em alguma fórmula mágica. Então, naquele mesmo dia, falei com a Promotora de Justiça, que é também formada em Letras, da situação calamitosa por que passava a A.P.M.I. Disse-lhe que tinha um plano: ministraríamos, eu e ela, um curso noturno de português, com duração de uma semana e, como tínhamos no salão do júri 80 poltronas, poderíamos vender cada ingresso por dois mil cruzeiros novos (acho que era essa a moeda oficial) e arrecadaríamos cento e sessenta mil. Não era uma fortuna, mas já era um começo. A Promotora ponderou que, depois de um expediente puxado como era o nosso, não teria forças para ainda manter-se de pé para ministrar aulas, à noite. E, se eu já estava querendo morrer, ela ainda não... Acabei dando o curso sozinho e, no sábado seguinte, num programa de rádio, entreguei, todo orgulhoso, o cheque de cento e sessenta mil para a presidenta da A.P.M.I. Alguns colegas criticaram minha atitude, dizendo que o tribunal do júri é propriedade do governo e não pode ser utilizado para fins particulares... Fins particulares?! Pois é. Não se pode, mesmo, ter a ilusão de agradar a todos. Mal comparando, nem Cristo o conseguiu...

Pois bem. Recentemente, solicitei a nosso intrépido presidente da Amapar colaboração para imprimir um livreto sobre questões vernáculas, para distribuição aos colegas da magistratura. Cioso de suas responsabilidades para com a saúde das finanças da entidade, negou ele a ajuda pretendida, alegando dificuldades financeiras daquela, dizendo que, além do mais, o órgão de classe já vinha me prestigiando bastante, dando-me importante espaço na revista, para publicação de minha coluna sobre Linguagem Forense...

Pode não parecer, mas esse tipo de prestigiamento tem um custo alto, em matéria de tempo e dedicação. Mas, é uma contribuição desinteressada que vale a pena, e vou continuar a ofertá-la a quem estiver disposto a recebê-la.

De qualquer forma, naquela ocasião, o nobre presidente da Amapar desconversou, dizendo que minha coluna é apreciada e desperta o interesse de muitos colegas. E coisa e tal... Mas, com relação a meu pedido, a associação, infelizmente, não tinha condições de editar meu opúsculo. Assim, eu mesmo, a expensas minhas, mandei publicar o tal livreto sobre questões vernáculas. Afinal, uma pequena contribuição minha (intelectual e financeira) para a causa da cultura... Alguns opúsculos foram enviados aos colegas pela própria associação, e outros tantos foram distribuídos, por liberalidade do Presidente do TJ, pela gentil e valorosa equipe do Cerimonial da Presidência. Juntamente com esse (A Cônsul ou A Consulesa?), foi enviado outro livreto de minha autoria, Manual do Juridiquês, sobre simplificação da linguagem forense, que estava mofando nas prateleiras da associação...

Ah! Como os assuntos da cultura são mal compreendidos e pouco valorizados neste País!

Nota: Albino de Brito Freire ingressou na magistratura em 1.º de julho de 1986, como juiz substituto da Comarca de Castro, tendo iniciado a carreira como titular na Comarca de Ubiratã, passando por Corbélia, Medianeira e Apucarana, chegando à entrância final, em Curitiba, tendo sido Juiz Auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça, na gestão de 97/98. Foi aposentado, a pedido, em 13/09/99.

 
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