O ESSENCIAL QUE O TEMPO APRIMORA
Chloris Casagrande Justen
Naquele ano de 98 foi uma agradável surpresa receber o
convite do Des. Antônio Oesir Gonçalves para desenvolver, no Curso
de Formação Básica para Juízes Substitutos, da Escola da
Magistratura do Paraná, o tema "O Magistrado e seu relacionamento com
a sociedade. / Expectativas, demandas e frustrações". Um
pensamento fugidio, num átimo de segundo, levantou a névoa do meu
passado, descortinando esperanças, lágrimas, risos de alvoradas,
folhas douradas do outono, grimpas crestadas do inverno. O amor, as amizades, o perfume de alfazema camuflando a realidade.
A honra de participar do processo da formação de novos
juízes ofereceu-me a oportunidade de tratar do panorama da
magistratura, onde o homem desempenha a árdua e delicada missão de
distribuir Justiça. O Curso de Formação Básica visa interligar os novos
juízes às funções judicantes, preparando-os para a magistratura.
Minha missão? - A contribuição lúcida do passado, onde os mais
novos possam garimpar valores para o aprimoramento do essencial em
sua vida de juiz.
Para o Jubileu de Ouro da AMAPAR, as lembranças da vida
de cada magistrado, e de suas famílias, serão preciosas gemas
compondo o Relicário de presentes e louros que oferecemos à Instituição,
mística da união da magistratura do Paraná. Ao relicário, pois, a história
de todos nós.
O relacionamento do juiz com a comunidade não se prende
à interpretação de leis ou de protocolos. Está ligado à ética
profissional e do comportamento, a valores vivencias e à função judicante.
A qualidade dessa intercomunicação é decorrente do longo
processo da formação do homem, da sua filosofia de vida, da higidez do
seu conceito de Justiça, da sua educação permanente.
Não vou endeusar minha jornada, quero trazê-la como
vivência, recordá-la com todas as emoções que deixaram sulcos
profundos em minha alma de esposa de magistrado. Quero retornar ao
meu passado e, reconhecendo precariedades, cantar como Emiliano
cantou a sua aldeia e, mutatis mutandis, cantar nos seus versos a
minha saudade: Não era mais que uma pequena aldeia. / Um lugarejo
assim, com passarinhos. / Flores, verdura e sol. Paisagem feia,/ A igreja,
um velho cura, água e moinhos.../ Nem cornamusa alegre de pastores.
/ Nada! Nem tudo me seriam flores... / Mas quem me dera não sair dali. Minhas lembranças, condensando outras tantas, representam
múltiplas e semelhantes jornadas. Esse contar o passado é a melhor forma
de falar sobre o relacionamento do juiz com a comunidade. Mesmo
que tantos anos tenham se passado desde aquele momento em que
nos conhecemos: - ele, um jovem advogado, altivez na postura,
cabelos negros e olhar brilhante trazia consigo a luz de seu caminho:
- "Serei juiz, mesmo que já de cabelos brancos e vou
distribuir justiça ainda que em um pequeno lugarejo." A partir daí,
determinado estava o nosso destino: um casamento que uniu, em sentimentos
e ideais indissolúveis, nossas vidas, nossos filhos.
Foram mais de três décadas de venturas e desafios,
enfrentando arbitrariedades, desbravando caminhos, dignificando a Justiça.
Cabe-me sim, falar de expectativas, demandas, frustrações. A mim, a então recém-casada com vinte anos, vivendo as agruras da primeira
comarca, onde a luz da lua dançava sobre nossas cobertas entrando
pelas frestas da parede de madeira tosca. Muitas vezes roupas e jornais
no lugar dos sarrafos, seguravam o frio ou impediam a entrada
de pernilongos, aranhas, percevejos. Talvez devesse mesmo ser eu
a contar histórias, lembrando aquelas longas horas que passei
rezando até que ele, o marido que eu amava, juiz da Comarca há apenas
três dias, retornasse da delegacia, onde, se preciso fosse, desarmaria
a polícia, que divulgara pretender descumprir o
habeas-corpus concedido. A luz do lampião que iluminava a saleta da pensão
de beira de estrada onde morávamos, iluminava também o lavrador
rude e robusto, o homem humilhado que viera detrás das grades,
trazido pelo juiz e que, ajoelhado e chorando, (eu pensava que ele
rezava) tentava beijar-lhe a mão, depois de dizer: -"Mesmo um menino, foi
o único a enfrentar os tiranos deste lugar".
A memória das ações de um juiz e de sua postura nas
comarcas, permanece como lenda sem jamais se desgastar, marcando
com exemplos e ações seus pósteros e seus familiares. Assim, os
valores que incorporamos desde a infância, e que transmitimos aos
nossos filhos, será base da personalidade do verdadeiro juiz que, na
prática da Justiça, no estudo do direito, com seu trabalho e
honestidade, construirá a essência de sua personalidade de magistrado. E
então, um dia, quando seu tempo terminar, quando partir para o
infinito, dirão dele, como do magistrado da minha história: "Juiz humano e
seguro, que, com sua inteligência e cultura, com bondade,
sabedoria e equilíbrio, honrou a magistratura paranaense, dignificando
sua imorredoura lembrança.".
No início de sua carreira, o juiz enfrentava dificuldades
próprias de sociedades primárias, quando as autoridades eram tidas
como pessoas superiores, inacessíveis e inquestionáveis. O
autoritarismo era a característica maior do insipiente poder público, onde
as distâncias e o isolamento facilmente produziam caudilhos
prepotentes que agiam não somente como donos da cidade, mas como
déspotas, senhores dos direitos individuais e até da vida de seus habitantes.
O Poder Judiciário, independente e autônomo era e continua sendo,
a única esperança dos muitos injustiçados e perseguidos. As
pessoas simples e desinformadas, habituadas ao assistencialismo,
quando viam atendidos os seus direitos, consideravam-se alvo de
benesses e retribuíam, não somente com presentes, mas com total
subserviência às autoridades. Ofendiam-se com as recusas do juiz ou de sua
família, por não receberem as dádivas, os "agrados" pelo atendimento
aos seus direitos líquidos e certos. Essas distorções sociais faziam
com que o juiz se retraísse, afastando-se dos jurisdicionados. O
forte assédio do poder e a pressão autoritária traziam consigo a
necessidade de selecionar os relacionamentos que assim os escolhidos eram
em número reduzido, mas se transformavam em amizades de vida
inteira, entrelaçadas pela verdade, pelo respeito, pelo viver honesto e
límpido. Esse o cadinho do juiz, a dignificá-lo.
Convivendo diuturnamente com um verdadeiro juiz, aprendi
que qualquer processo é, inteiro, um segredo de Justiça. Assim unidos
e felizes, em meio a conturbações, entrechoques, desencontros
de mentalidades e de culturas, aprendemos juntos, em conversas
noites adentro, e durante a vida toda, que o aprimoramento vem da
justeza do diálogo interior, da observação do corriqueiro, da
compreensão do outro. Buscamos, em referenciais teóricos, entender
os procedimentos pessoais e a realidade em que vivíamos, e
confirmamos a validade dos nossos valores. E, comparávamos sem condenar,
e debatemos os comentários, o sigilo como sistema. Na
carreira, sofremos desilusões e auferimos alegrias, ele e eu afinados
em propostas, unidos em lutas e esperanças. Nós dois e nossos
filhos, vida comum: amor, alegria, respeito, papéis
definidos, responsabilidades partilhadas, pais e filhos, todos buscando
a felicidade de cada um e da comunidade, certos de que o juiz e
sua família não têm privilégios; têm sim, maiores responsabilidades,
todos iguais em direitos, especiais em ações individuais e sociais.
Todos sonhadores, querendo um mundo melhor. Os
comportamentos calcados nos mesmos princípios, em aspirações e atividades que
entretecem os sonhos, amenizam os sofrimentos, ajustam o
trabalho e, fortalecendo a personalidade, encantam a vida.
A magistratura, como qualquer outra carreira
exige atributos especiais de seus integrantes. A qualificação do Juiz
vai além da competência jurídica, passando pela incorporação dos
valores universais que mantêm uma personalidade saudável e íntegra,
condição precípua do juiz. Caso contrário, não alcançará a eficiência que
dele se espera. Assim foi, assim é e assim será, sempre.
As rápidas transformações das sociedades
contemporâneas apresentam realidades que não podem ser ignoradas. A queda
do totalitarismo, o desenvolvimento tecnológico, a busca da
cidadania, práticas democráticas que farão parte da cultura jurídica,
acrescidas dos conhecimentos do Direito contemporâneo. Um juiz atualizado
e de ação irretocável, além do saber jurídico tem que dominar os
saberes da filosofia, da sociologia e outros tantos saberes que o levem a
uma mentalidade aberta e sensível. De sua personalidade, os ideais
da democracia tais como a não-violência, a partilha de direitos e
deveres, a responsabilidade social, o princípio da irmandade. No seu
cotidiano, o interesse pelos outros, a cooperação, a harmonia. Estudioso
e integro, o juiz há de incorporar os valores da Justiça, da
fraternidade, da probidade. Com liderança e lhaneza, independência e
retidão, superando frustrações na alegria do dever cumprido, o juiz é
homem feliz, mantendo postura de magistrado e importância de
cidadão, construindo no dia-a-dia a sua imortalidade. Essa, a bela história
do juiz.
Com minha saudação especial àqueles juízes visionários
que instalaram a Escola da Magistratura do Paraná, hoje
destacada nacionalmente pela sua competente posição de vanguarda na
formação e atualização dos juízes e na divulgação do conhecimento jurídico,
a minha homenagem aos seus diretores e professores,
assegurando minha gratidão e honra em contar histórias para juízes.
À distinção de participar desta homenagem ao
Jubileu de Ouro da AMAPAR, apresento meus votos da continuidade de
sua brilhante trajetória, ideal de insignes personalidades da
Justiça paranaense, instituição que, ocupando a vanguarda de
grandes projetos, é projeção nacional.
Aos magistrados do Paraná, os merecidos louros
pela sua honorável dedicação à Justiça!
Chloris Casagrande Justen
da Academia Paranaense de Letras
Viúva do Desembargador Marçal Justen